A recente pesquisa divulgada pelo portal SindicoNET traz um retrato claro — e ao mesmo tempo desafiador — sobre a percepção dos moradores em relação à gestão condominial no Brasil. Mais do que números, o estudo evidencia uma transformação profunda no setor e aponta para um novo momento: a transição para a gestão condominial 5.0.
Os dados mostram um cenário dividido. Atualmente, 42,8% dos moradores se posicionam como promotores da qualidade de vida em seus condomínios, enquanto 27,8% são neutros e 29,4% são detratores. Entre os insatisfeitos, a principal causa apontada é a má administração, responsável por 66,6% das avaliações negativas . Ainda que exista uma parcela relevante de moradores satisfeitos — que associam essa experiência à boa gestão, manutenção e limpeza —, a maioria percebe o condomínio como um ambiente conflituoso e desorganizado, revelando uma lacuna importante entre expectativa e entrega.
Nesse contexto, o desejo do morador é bastante claro: 41,4% buscam uma gestão que seja ao mesmo tempo eficiente e humana. Ou seja, não basta apenas executar bem as rotinas operacionais, é preciso cuidar da experiência e do relacionamento. Outro dado que chama atenção é o alto potencial de engajamento: 72,8% dos moradores afirmam estar dispostos a colaborar com a gestão. Existe, portanto, uma oportunidade real de construir comunidades mais participativas — desde que haja direcionamento adequado.
Quando analisamos a figura do síndico, o cenário se torna ainda mais sensível. A pesquisa revela um NPS negativo tanto para síndicos profissionais (-22) quanto para síndicos moradores (-18), com apenas 25% recebendo avaliações de excelência . As principais falhas percebidas estão diretamente ligadas à comunicação ineficiente, falta de transparência, atendimento lento e ausência de planejamento. Em contrapartida, as expectativas dos moradores seguem exatamente o caminho oposto: transparência, proatividade, capacitação e boa comunicação.
Embora 57,9% ainda prefiram síndicos moradores, principalmente pela proximidade, os dados mostram que essa proximidade não está necessariamente associada à presença física. Apenas 22% consideram esse fator relevante, enquanto mais de 76% valorizam a capacitação e a competência do gestor . Isso deixa evidente uma mudança importante no comportamento do morador: a proximidade continua sendo valorizada, mas o profissionalismo se tornou indispensável.
No que diz respeito às administradoras, a pesquisa expõe um dos pontos mais críticos do mercado atual: o grande gap de percepção entre síndicos e moradores. Enquanto os síndicos avaliam as administradoras com um NPS positivo de +39, os moradores atribuem um NPS negativo de -18, gerando uma diferença de 57 pontos . Isso indica que o valor entregue pelas administradoras não está sendo percebido pelo cliente final.
Além disso, moradores tendem a enxergar síndico e administradora como um único bloco, o que faz com que falhas de comunicação, transparência ou eficiência sejam atribuídas indistintamente a ambos. Entre as principais reclamações estão a prestação de contas insatisfatória, a demora na resolução de problemas, o atendimento ineficiente, a falta de transparência e a baixa qualidade dos sistemas ou aplicativos utilizados . Já os síndicos também apontam desafios relevantes, como desorganização, falhas na previsão orçamentária e dificuldades na cobrança de inadimplência.
Quando se trata da decisão de troca de administradora, fatores como falhas na prestação de contas, problemas de comunicação, atendimento ineficiente e baixa capacidade de resolução aparecem muito antes do custo. Isso reforça um ponto essencial: o problema central não é preço, mas sim percepção de valor.
Esse cenário se conecta diretamente com outro dado importante da pesquisa: 78,3% dos profissionais do setor apontam o reconhecimento e a valorização como um dos principais desafios do mercado. Isso evidencia a necessidade urgente de reposicionamento das administradoras, que ainda são vistas majoritariamente como operacionais, quando deveriam atuar como parceiras estratégicas da gestão.
É nesse contexto que surge a gestão condominial 5.0. Esse novo modelo representa uma evolução significativa, impulsionada principalmente pelo avanço da tecnologia e pelo uso da inteligência artificial. A IA passa a redefinir a base operacional, permitindo maior automação, eficiência e análise de dados. Com isso, o síndico assume um papel mais estratégico, focado em relacionamento e tomada de decisão, enquanto a administradora evolui para um hub consultivo e inovador, capaz de integrar informações, orientar decisões e gerar valor de forma contínua.
Ao mesmo tempo, as equipes passam a atuar na supervisão de processos automatizados e no uso de dados preditivos, elevando o nível de profissionalização da gestão. A tecnologia deixa de ser apenas um apoio e passa a ser protagonista, viabilizando comunicação constante e profissional, processos mais ágeis e uma gestão orientada por dados. Não por acaso, 65% das administradoras já enxergam a inteligência artificial como uma aliada na otimização do trabalho .
A principal mensagem que fica é clara: a tecnologia não substitui o gestor, mas potencializa sua capacidade de entrega. Nesse novo cenário, o risco não está em ser substituído por máquinas, mas por profissionais que sabem utilizá-las de forma estratégica.
Diante disso, o futuro da gestão condominial será definido pela capacidade de adaptação a esse novo padrão, que exige transparência, comunicação eficiente, agilidade, uso inteligente de dados e, sobretudo, equilíbrio entre tecnologia e relacionamento humano. A integração entre síndico e administradora deixa de ser apenas desejável e passa a ser essencial, formando um ecossistema de valor capaz de atender às novas expectativas dos moradores e elevar, de forma consistente, a experiência condominial.
Artigo elaborado por: Daniel Nahas